25 de ago de 2012 | By: @igorpensar

O que é legalismo?

Por Igor Miguel

Para muita gente, legalista é aquela pessoa que pretende ser salva por suas obras ou sua obediência às leis e aos mandamentos de Deus.   Em outras palavras, esta pessoa para ser aceita por Deus, deveria andar em plena obediência.

Mas, o que tenho visto é um outro formato de legalismo, tão danoso quanto o mencionado acima.  Me refiro, a um legalismo "soft", se é que existe tal coisa.  Há um legalismo baseado na seguinte hipótese:
Deus me salva pela graça mediante a fé no que Cristo realizou na cruz.  Mas, para permanecer nesta graça, tenho que obedecer.  
Pessoas alegam, a partir da lógica acima, que não são legalistas, pois reconhecem a graça como um fator importante para o "início" da vida cristã.  A graça seria o meio de acesso à trajetória, mas depois, depende delas a manutenção desta "obra salvadora".  Quando se esforçam, quando se dedicam em oração, jejum e obediência.

Não tenho dúvida, se a graça é entendida como uma dádiva que opera somente no início, e depois, torna-se um tipo de "remédio" só para sermos perdoados em eventuais "pecados" (que não são tão eventuais assim), novamente há um entendimento legalista do evangelho.

Eu até entendo que pessoas que formulam uma doutrina da salvação nestes termos, o fazem sob uma preocupação ou ansiedade, como se a doutrina da graça produzisse um tipo de "libertinagem".  E há anos, os grandes pregadores da graça, dentre eles os reformadores, sempre insistiram em afirmar que não há qualquer relação entre "graça"  e "libertinagem".  

O que todos eles defendiam era que a "obediência do cristão" não tem qualquer relação de causa quanto ao ser "justificado" ou "aceito" perante Deus.  A obediência não é o que salva o homem, não se pode colocar a tensão sobre o "homem", pois ele mesmo, por si só, não tem qualquer condição de se salvar ou se santificar.

Logo, a graça não é algo que opera unicamente no início da jornada, como observei em um texto por aqui, mas age permanentemente sobre a vida do cristão.  Inclusive, o cristão só faz "obras" por causa deste amor dadivoso.  Mas, observe, não são estas obras a causa ou o fator condicionador para a redenção dos homens e sua salvação eterna.  A causa sempre será e deve ser os méritos de Cristo em seu magnífico sacrifício.

Então, legalismo é toda tentativa de se tornar aceito por Deus fora dos méritos de Cristo e da ação da graça de Deus.  Se alguém alega que para permanecer na graça deve obedecer a Deus, tal pessoa é legalista.  Pois não reconhece que um cristão só permanece na graça por causa da graça mesmo.   Uma pessoa que "caiu da graça" é uma pessoa que afinal, nunca foi alcançada por ela. 

Por isso, é tão comum perceber entre pessoas que baseiam sua espiritualidade neste legalismo "soft" um tipo descentralização de Cristo.  Jesus é colocado apenas como um modelo a ser imitado, mas não como o agente mesmo para uma vida santa.  A vida santa acontece por causa de Jesus, dele emana toda graça para uma obediência grata.

Jesus afirmou claramente: "sem mim nada podeis fazer" (Jo 15:5).  Então, deve-se deixar claro, que a ausência de frutos é um indício sério de que alguém não foi alcançado pela graça.  E a presença de frutos pode ser o indício de que fomos introduzidos na presença do Pai e que Ele agora opera em nós "o querer e o realizar".  Porém, dizer que é pelos "bons feitos" que os homens serão aceitos e obterão graça para continuarem na "aliança" ou "permanecerem salvos", é novamente, obscurecer o motivo central pelo qual nos mantemos de pé: Jesus Cristo.

O problema do legalismo, seja em qual formato, é que ele sempre coloca uma tensão sobre os homens, desfocando Cristo como o agente (autor e consumador) da fé.  Se um dia estivermos perante Deus, e se hoje, sou aceito perante o Pai em oração é por causa de Jesus, não por causa de alguma coisa que faço ou deixo de fazer.   Deus não me ama mais do que meu irmão, por causa de uma piedade pessoal mais elevada.  Deus nos ama igualmente por causa da piedade e intercessão de um só que é Jesus Cristo.

Se obedecemos, o fazemos por causa do Espírito de Cristo (I Pe 1:11), logo, é Cristo o agente desta obediência.  Foi para boas obras que fomos criados (Ef 2:10).  Entretanto, obras pautadas nos méritos de Jesus e não em um esforço autônomo.  Obras que galardoam, por terem sido feitas por e em Cristo.  Mas, quando estivermos perante Ele, será porque o que Jesus fez foi bom o suficiente para nos colocar lá. 

Enfim, por que Deus fez as coisas assim?  A resposta de Paulo é categórica:  "para que ninguém se glorie!" (Ef 2:8 e 9).  O problema do legalismo é que ele desvia a glória de Deus.  O antídoto?  Reconhecer que tudo é por graça.  

Se há alguma parcela de feitos humanos aí envolvidos na justificação, santificação ou glorificação dos santos.  Ou mesmo, uma combinação de ambos (sinergismo).  A glória não é toda Cristo, mas dividida entre Cristo e os homens.  Uma contradição interna à natureza do evangelho.  Um cristão, por isso, é movido por fé e confiança obstinada e graciosa, que Cristo é poderoso para o transformar, no Espírito Santo, no que ele é (de glória em glória).  Transformação operada a partir da clara e eficaz obra salvadora que foi realizada em nós por meio de seu perfeito sacrifício.

Soli Deo Gloria!

13 comentários:

Paulo Dib disse...

Muito bom Igor!!!!
Não poderia concordar mais com vc...
Louvado seja Cristo por sua graça que nos alcança, salva e nos sustenta até o fim!!
Palavras de um ex soft, rsrsrsrs.

Clausarmento disse...

Excelente texto Igor, como sempre!!! Cristo no centro!! Por Ele pra Ele seja a Glória!! Tirar o homem do centro é necessário para que o Evangelho da graça seja bem compreendido e mais vivido!!!

Rodrigo Rocha disse...

excelente Igor!! simples e profundo...por coincidencia estava conversando esta semana com o Philipe sobre esse assunto.
é interessante sobre esse tema da graça aquele exemplo de Cristo tocando no leproso Mc 1:40; para sermos atingidos pela graça não precisamos estar "limpinhos" ou "perfeitinhos"; não precisamos fazer nada! sola gracia!

@igorpensar disse...

Fala primo Dib!

Obrigado pelo comentário. Ex "soft" foi ótima!

Abraços!

@igorpensar disse...

Cláudia,

Obrigado pelo comentário. Cristo no centro, não existe verdade mais cara para nós cristãos.

Igor

@igorpensar disse...

Fala Rodrigo!

Exatamente isto aí. Por falar em leproso, não sei se já lestes: http://pensarigor.blogspot.com.br/2012/02/razao-e-o-leproso.html

Abraços!

Rodrigo Rocha disse...

fiquei triste que vc me abandonou (face) mas vou ler!! meu cerebro já está fundindo com tanta informação! ficou sabendo q estive no ultimo retiro do L'abri? achei que vc estaria lá. Pr Guilherme, sofreu comigo.. rs rsrs
quero fazer EAD no labri ano q vem, oq vc acha? como moro fora é a unica forma.

"UMA COISA FAÇO..." disse...

Igor, interessante seu ponto de vista sobre o tema. No entanto eu me pergunto: E a resposta do homem à ação da GRAÇA de Deus para com ele?

Me pareceu em seu comentário que o homem fica inerte, insensível a toda ação de Deus.

@igorpensar disse...

O texto trata exatamente da "resposta", só que ela não é do homem, no sentido que "procede do homem mesmo". Ela acontece no homem a partir de Cristo, o que fazemos, é o que Cristo faz. O detalhe é sutil. O legalismo é quando dizemos ou pensamos que para permanecermos no estado que a graça nos colocou, temos que fazer independente ou em cooperação com a graça alguma coisa. A ideia é que mesmo o que fazemos, deve ser feito absolutamente sob ação da graça e do Espírito Santo, não pode haver feitos sem isto.

Não há passividade, há uma volição (vontade de fazer) que é fruto da graça, lembre-se, é Ele (Deus) que opera em nós o querer e o efetuar. Um cristão salvo pela graça é permanentemente convidado pelo Espírito Santo a fazer o que é certo e tem recursos na graça de Deus para fazê-lo.

Em outras palavras, quando fazemos o que é errado, é o que podemos fazer independente da graça, com pecadores. Quando fazemos o que é certo, certamente foi Deus quem operou em nós por Cristo.

Há mais potencial na providência de Deus para fazer o que deve ser feito do que se imagina.

Abraços,
Igor

Rauni disse...

Bênção de texto.
Este legalismo "soft" na verdade é um peso grande nas costas ... Compreender que a graça é do começo ao fim e os méritos de Cristo são plenos e suficientes para tudo em nossa caminhada com Deus é "aliviante" e maravilhoso.
O legalismo tende a ser "bipolar", ora nos levando para a culpa(qdo falhamos em nossos esforços religiosos), ora nos levando para o orgulho(qdo achamos que estamos marcando pontos com Deus). Afinal, a culpa foi paga completamente na Cruz e a graça de Deus não possibilita ninguém a se gloriar, senão no próprio Deus e sua maravilhosa graça.

Roberta Braga disse...

Perfeito! Quando o Espírito Santo de Deus começa a operar em nós com Seus Frutos, então entendemos e começamos a obedecê-lo por amor, por toda a Sua glória e por gratidão ao que nos fez e tem feito...e ao que ainda fará, pois Ele é bom, Deus é sempre bom!

@igorpensar disse...

Definitivamente muito bom!

Oscar Mendes Mesquita Neto disse...

Muito edificante parabéns ! Deus continue abençoando...