15 de ago de 2010 | By: @igorpensar

O Código da Aliança

Por Igor Miguel

Ele nos libertou do império das trevas e nos transportou para o reino do Filho do seu amor, no qual temos a redenção, a remissão dos pecados. (Cl 1:13-14)



Os eleitos, uma vez salvos pela graça e adotados, são inseridos, ou melhor, transportados do império das trevas para o Reino do Filho de Deus (Jesus). Este "transporte" tem implicações muito sérias, pois significa uma mudança de "realidade". Neste versículo, Paulo faz uso de uma linguagem de libertação, que remete a páscoa israelita [hb. pêssach - פסח], quando o povo israelita foi liberto do Egito e engajados em uma jornada para a liberdade (Êxodo).

De fato, o próprio termo hebraico para "páscoa" quer dizer "passagem", uma transição do estado de cativeiro e prisão, para o estado de liberdade. Neste sentido, Israel torna-se o povo de YHVH e este "tornar-se povo", implica um tipo adoção nacional ou uma relação de suserania e vassalagem.

Nos povos da antiguidade, quando um reino mais fraco era dominado por um reino mais forte, os cidadãos
que se rendiam do reino dominado, eram absorvidos pelo reino suserano, tornando-se assim seus vassalos. Um "rei" ou "senhor" exigia, como um tipo de rito de absorção nacional, que os vassalos se comprometessem com o novo reino por meio de uma confissão pública dos decretos reais, firmando assim uma aliança com aquele rei, podendo estes decretos serem denominados de código da aliança.

Em uma lógica semelhante, Deus ao libertar o povo de Israel do Egito, os inseriu em seu reino, transformando-os em povo da aliança ou gente peculiar, ao menos esta é a linguagem que encontramos em Êxodo quando é dito:

Agora, pois, se diligentemente ouvirdes a minha voz e guardardes a minha aliança, então, sereis a minha propriedade peculiar dentre todos os povos; porque toda a terra é minha; vós me sereis reino de sacerdotes e nação santa. São estas as palavras que falarás aos filhos de Israel. (Ex 19:5-6)

Interessante que este quadro teológico de nova nacionalidade e adoção nacional é também usado pelo apóstolo João ao se referir à Igreja (Ap 1:6; 5:10) e pelo apóstolo Pedro quando escreveu em sua primeira carta:

Vós, porém, sois raça eleita, sacerdócio real, nação santa, povo de propriedade exclusiva de Deus, a fim de proclamardes as virtudes daquele que vos chamou das trevas para a sua maravilhosa luz; vós, sim, que, antes, não éreis povo, mas, agora, sois povo de Deus, que não tínheis alcançado misericórdia, mas, agora, alcançastes misericórdia. (I Pe 2:9-10).


As palavra de Pedro remetem ao êxodo, uma linguagem do imaginário judaico da relação exílio-libertação. A teologia petrina é que a Igreja é composta por um "povo" que se tornou "povo de Deus". Esta mudança de estado é afirmada com o uso de algumas expressões e conceitos chaves como: o movimento "trevas-luz", o "chamado" (ideia de eleição), o adjetivo propriedade exclusiva, e outras termos que evocam este novo estado. Neste ponto, é importante destacar a noção de Senhorio de Cristo.

Não são poucas vezes que o Novo Testamento se refere a Jesus como Senhor (gr. kyriós). Isto se deve ao fato, de que há uma relação de soberania entre Cristo e seus súditos. Ele é o senhor "suserano", o rei, com quem os cativos-libertos firmam um pacto de liberdade. Por isso, os "chamados" são inseridos no novo reino, onde desfrutarão de todos os benefícios deste pacto. Na lógica bíblica não existem despatriados, ou se pertence a um reino tirano de escravidão ou a um reino de liberdade e justiça.

No Reino de Deus, não há "autonomia" no sentido moderno, no sentido de uma "lei para si mesmo". Esta proposta, remete a queda do homem no Éden. Por isso a "liberdade moderna" é uma falsa liberdade. A proposta bíblica é que em lugar da "autonomia" baseada no ego humano afetado pela queda, a verdadeira liberdade, que remete à criação, está em se submeter a lei de Deus. Nossa liberdade, neste sentido, se encontra em uma heteronomia, ou seja, na "lei de outro", neste caso, a Lei de Deus.  Herman Dooyeweerd, importante filósofo cristão, chamaria isto de cosmonomia, ou seja, o princípio bíblico de um mundo, uma realidade ou reino, regido por leis divinamente constituídas.

De forma mais clara, o que seria uma cosmonomia pautada nas Escrituras?  Seria a admissão de que no Reino de Deus, a verdadeira liberdade opera-se pela internalização da lei de Deus pelo Espírito. Se baseia no cumprimento da profecia de Jeremias sobre a Nova Aliança , em que um dia a lei do Senhor seria escrita na mente e nos corações (Jr 31:31 e seg.). O Novo Pacto é uma nova relação senhorio-súdito, pois, no pacto anterior, havia uma submissão mecânica ao código da aliança, neste pacto renovado, a lei é inscrita, integrada ao interior humano. Por isso o profeta Ezequiel viu dias em que um coração regenerado seria dado ao homem, e que o próprio Deus operaria (monergisticamente) a obediência da lei a partir de seu coração (Ez
e36:26-27). Esta é a liberdade do Espírito!

Enfim, a vocação é entender que vivendo nesta realidade do Espírito, no Reino de Deus (no Civitas Dei - adotando Agostinho), Jesus Cristo tornou-se Senhor, soberano sobre o Povo de Deus. O Povo de Deus vive uma realidade completamente nova e uma liberdade que é operada por Deus, quando Ele inscreve nos corações dos santos seus preceitos, concedendo-lhes nova identidade e novo sentido existencial. Isto é algo que atinge as relações concretas desta existência, a rotina; envolve o comer, beber, casar, trabalhar, pesquisar etc. Agora, os resgatados vivem sob uma aliança, a linguagem e o estilo de vida de um novo reino, o Reino de Deus sob o senhorio de Jesus Cristo.


Soli Deo Gloria

4 comentários:

Ricardo Mamedes disse...

Caro Igor,

Interessante texto, especialmente quando diferencia, por assim dizer, a antiga aliança (firmada entre Deus e Israel), e a nova, agora não mais "nacional", mas com "todos", subordinado a crer (Jo 3.16). Penso que os versículos iniciais de Romanos 9 esclarecem bem esse ponto, delimitando as duas alianças (antiga e nova), de acordo com a sucessão dos versos, a partir, salvo engano, do verso 6. A Nova Aliança deixa de ser com Abraão e Isaque (povo, nação), passando a ser exclusivamente pela graça e abarcando "todos" (judeus e gentios).

Gostei também da pincelada dada à queda e à condição pecaminosa do homem pós-queda. E aí, claro, para aproveitar a sua citação de Agostinho, na tentativa de explicar a queda, Adão tinha a condição de "escolher não pecar" (posse non peccare), enquanto que os seus descendentes não (non posse non peccare).

Abraços!

Ricardo.

Daniel Ben Iossef disse...

Shalom, Igor!

Algo que sempre me chamou a atenção neste versículo é de onde fomos tirados - do império - e para onde fomos transportados - o reino.

No dicionário, um dos significados da palavra império é "exercer império despótico". Ou seja, satanás exercendo um poder que ele não tem, um título de alguém que "usurpou" este poder - quando da queda do homem, e da autoridade concedida pela queda do homem ao diabo.

Já a palavra reino tem o sentido de " Nação ou Estado governado por príncipe reinante que tem título de rei: Fig. Domínio, lugar ou campo em que alguém ou alguma coisa é senhor absoluto", ou seja, o Eterno e Seu Reino. Só Ele é tem autoridade suprema sobre tudo e todos.

Com isso,Paulo nos mostra a diferença da autoridade no "império", sob um governo déspota e mentiroso de satanás, contrastando com o Reino, onde através de Seus decretos, o homem agora é livre para obedecer e usufruir dos benefícios desta nova posição, da nova vida.

E como você já mencionou, não há lugar para "despatriados". Ou estamos sob um governo déspota, ou sob o governo de Deus...

Mas como é difícil entender estes conceitos, pois vivemos numa democracia, e não temos mesmo a noção do que é um Reino...

Mas vamos caminhando, e pensando...

Forte abraço,

Daniel

otdx disse...

Igor, Shalom!

Excelente artigo. Tomei a liberdade de publicá-lo no Orthodoxia, com os devidos créditos.
http://otdx.blogspot.com/2010/08/o-codigo-da-alianca.html

Abraço,
Fabrício.

@igorpensar disse...

Fabrício,

Fique à vontade. Para mim é uma honra ter o post publicado em seu blog, que é uma das referências em um cristianismo ortodoxo e culturalmente relevante.

Abraços,