5 de jan de 2017 | By: @igorpensar

Casamento x Romantismo

Casamento não é uma instituição romântica. O romantismo é um movimento de apenas 250 anos. O casamento existe antes disso. O casamento é prioritariamente o lugar onde uma comunidade se forja sob outros critérios. E, se você confunde afeição, amor e expressões de afago com romantismo, que é a meu ver, um tipo de soteriologia (doutrina da salvação), pode ser um importante indício de seu cativeiro.

Casamentos estão aos cacos ou acabando porque as pessoas ainda estão cativas do romantismo. Alain de Botton* insiste que as "pessoas casam para fazerem um sentimento legal permanente", querem engarrafar a "alegria que sentem". A honestidade de Botton é perturbadora mas realista: "Escolher com quem nos comprometeremos é meramente um caso de identificar que tipo de variedades de sofrimentos nós gostaríamos mais de nos sacrificar", mas o sacrifício é inescapável no casamento. E, se você, já quer correr dele, veja se sua mente não está acorrentada a uma invenção cultural de menos de três séculos.

Um pouco de realidade ajuda muito o casamento. Não é um "encaixe" perfeito onde demandas são satisfeitas, é um lugar onde nos tornamos maiores do que nossas demandas exigem, mas nunca sem negação de si, sem renúncia e sem sacrifício. O contrário disso é um eterno jardim de infância criado pela imaginação romântica. Casamento não salva mas é o melhor lugar para nos tornarmos adultos.
6 de dez de 2016 | By: @igorpensar

Advento e Graça

Por que o cristianismo, em particular, a tradição agostiniana e protestante, são tão insistentes em relação a salvação pela graça? A noção de que os homens são salvos gratuitamente independente de suas obras. Por uma razão simples: coerência evangélica.
Se Cristo é o que está preservado nos quatro evangelhos (Mateus, Marcos, Lucas e João), ele não pode ser meramente um mestre ou um exemplo moral. Ele é maior do que nossa razão suportaria conceber. Em um contexto de monoteísmo estrito a imaginação dos evangelistas não permitiria inventar um Deus Encarnado. Claro, isso tudo torna o drama da salvação, a vinda visível do "EU SOU", muito mais surpreendente: ela implicaria em uma rendição radical, ou seja, desistir de impressionar a divindade com performance religiosa, sacrifício ou piedade. Ao invés disso, ao homem há um convite para abraçar o sacrifício e a oferta dada gratuitamente pelo próprio Deus. Esta é a inversão de todas as religiões, isto é o Evangelho (boa-nova), tem cheiro de Deus.

Para muitos a noção de que Deus nos salvou por graça, vindo Ele pessoalmente para fazer o que não poderíamos fazer, implicaria em um perigoso precedente: as pessoas deixariam de obrar, de realizar algo, cairiam em um tipo de passividade quietista. Porém, a ironia é que a obra de Cristo convoca os santos para obrarem ainda mais, mas por outro motivo, baseado em amor gratuito como gratuito foi o amor que os alcançou. Assim, obras se tornam efeitos e não causa, e é justamente por isso que são boas obras.

A salvação de Deus e as obras dos santos são igualmente graciosas, pois refletem um Deus que não os entrega à ilusão de que se pode fazer uma escada para chegar ao céu, mas que anuncia que Deus mesmo se fez "escada" e habitou entre nós. Como não podíamos abrir este caminho por nós mesmos, Cristo se fez caminho realizando o que não poderíamos realizar.
#advento#solagratia
5 de dez de 2016 | By: @igorpensar

Amar o Próximo como a Ti

Já viram alguém violentando o grande mandamento de Cristo que ordena: "Ame o próximo como a ti mesmo."? Um exemplo é quando se apropriam dos termos da ordem divina transformando-o em uma espécie de "autoajuda". Alegam: não é possível "amar o próximo" sem que primeiro alguém se ame. O mandamento de libertação do ego transforma-se em um convite para entrar no labirinto narcisista. Coisa dos diabos!

Veja bem: alega-se que só podemos amar alguém, se antes, investirmos energia para superar um suposto "autodesafeto". Em outras palavras, é a partir de um esforço de autocura, autorrealização, autossatisfação, ou pra ser mais explícito, autossalvação, que alguém pode finalmente amar alguém.

Então, em voz mais popular, alguém prega ou afirma: "-- Está vendo? Pra você amar o próximo, você 'tem' que se amar primeiro! Como você pode amar ou cuidar do outro se você não se cuida e não se ama?". Dessa maneira, observem a armadilha, a força do mandamento é desviada para o ego, exatamente o lugar de onde ele quer te tirar. Sentiu o cheiro de enxofre?

Pessoal, não precisamos de uma ordem para amarmos nós mesmos. Somos obcecados com nossa própria imagem, já nascemos com este defeito de fábrica. Ninguém precisa dar ordem para fazermos algo que já carregamos conosco em modo "default". Autopreservação corre em nossas veias. Veja que todo nosso esforço psicológico e religioso tende a voltar para um falso, mas insistente, centro de gravidade: o ego. Somos assim, e é precisamente por causa desta compulsão inata que Jesus veio.

Ele veio para nos libertar de nós mesmo. E, essa é nossa guerra diária e nossa tentação permanente. Foi por isso que Jesus disse: "tem que perder a vida pra ganhá-la". Este é o custo do discipulado, a jornada da santidade e do amor. Amar é fazer o que nos é impossível: querer ao outro tudo o que queremos para nós, com o mesmo vigor, naturalidade e disposição.

Nosso problema não é de autoestima ou autonomia, mas com este prefixo "auto", este movimento infernal concêntrico que nos impede de amar. Eis mais uma razão para fixarmos nossos olhos em Cristo, Aquele que nos convida a sairmos desta cova e encontrarmos luz.

"Pela graça sois salvos, mediante a fé, isto não vem de vós, é dom de Deus." (Apóstolo Paulo).
7 de jul de 2016 | By: @igorpensar

Igreja Missional [vídeo aula]

Um trecho de nossa aula magna na Faculdade Teológica Reformada de Brasília sobre o tema "Igreja Missional", o vídeo completo está logo abaixo:





Vídeo Completo

20 de jun de 2016 | By: @igorpensar

Subversão de Toda Idolatria Ideológica

Qualquer leitor leigo, sem muitos recursos hermenêuticos sabe, que o cristianismo, a partir da revelação das Escrituras, tem uma ética sexual. O que isto significa? Um moralismo do tipo que Deus só ama os castos? Obviamente que não. Pois o cristianismo implica em uma fé que acolhe pecadores, gente despedaçada e vulgarizada como eu e outros. Jesus não veio para os sãos, veio para os doentes. Entretanto, o cristianismo tem recursos para transformação do ser humano, fazendo-o viver para além de suas pulsões, para além de seus disparates e fetiches sexuais. Por isso o cristianismo é libertador

Não é moralismo, pois este exige que se chegue a Deus moralmente resolvido para que se torne aceito. O cristianismo exige arrependimento e fé nos méritos de Cristo, justificação, para que entremos em seus domínios por graça. Por outro lado, a obra da justificação engatilha um fascinante processo de transformação, o que chamamos de santificação. A santificação envolve também sermos equipados com uma vida virtuosa, onde nos tornamos gradativamente livres de nós mesmos. Uma ética sexual cristã implicaria não em um purismo gnóstico que vê no corpo um mal. Mas que trata-o com o devido respeito, pois não é um objeto desconectado do ser, não é um fim em si mesmo, o corpo integra-se à existência. A insistência bíblica e da tradição cristã com a ética e a pureza sexual não é uma obsessão gratuita, é justamente porque tem a sexualidade em um lugar melhor, mais belo, e menos banalizado.

O problema com "a exposição da vulva" de autoria da Thamyra não é o escândalo, mas como fere a antropologia cristã. Cristãos resistem todo tipo de fragmentação, segmentação ou reducionismo do ser humano, por justamente crer que "o Cristo todo, morreu pelo homem todo" (Lausanne). Um "cristão" que pede a várias pessoas, tipo, 'me empresta sua "vagina" para tirar uma foto e fazer um trabalho "artístico"?', fere a noção de que pessoas não são meras partes, mas que elas têm rostos, biografias e idiossincrasias. O que me impressiona é que afirmam uma missão integral mas reduzem a condição humana a apenas uma fatia de sua existência.

Então, por favor, aprendam: uma missão cristã que aprecie a totalidade da vida, um Cristo que confronta todo misoginia, todo machismo, toda idolatria sexual, toda "falolatria" ou "vaginolatria", toda retórica de objetificação e autodeterminismo, não pode estar subserviente a nenhuma ideologia moderna. As Escrituras resistirão e subverterão toda tentativa de instrumentalização de sua verdade a qualquer narrativa cultural ou política que reduza o ser humano a alguma coisa que seja menor do que ele.

O corpo de um cristão é de Cristo, não faça dele o que quiser.

"Porque fostes comprados por bom preço; glorificai, pois, a Deus no vosso corpo, e no vosso espírito, os quais pertencem a Deus." (I Co 6:20).
17 de jun de 2016 | By: @igorpensar

Resposta ao Frei Martin sobre Orlando

Uma resposta ao Frei James Martin
sobre o massacre em Orlando
Elliot Milco


Na última terça-feira, o jornalista jesuíta e editor-geral do America, Frei James Martin, publicou um vídeo no Facebook sobre o recente massacre em Orlando. Em seu vídeo, ele expressa seu desalento com as reações dos bispos católicos americanos não porque estes fracassaram em expressar tristeza, revolta e solidariedade para com os que estão sofrendo, mas porque não direcionaram (com exceção de Blaise Cupich, de Chicago) suas condolências explicitamente à Comunidade LGBT.

Preste bem atenção: a queixa de Martin não é por qualquer falta de empatia ou solidariedade, mas pela linguagem que os bispos escolheram para identificar o sofrimento. “A todos aqueles que foram afetados” (Arcebispo Kurtz) não é suficiente. “O povo de Orlando” também não é suficiente. Precisamos ficar com o grupo identitário cujos membros foram principalmente afetados, pois eles não foram alvos nem como habitantes de Orlando nem como transeuntes casuais, mas como membros desse grupo identitário.

O vídeo do Frei Martin é um ótimo exemplo de sua completa compaixão e cuidado com as palavras. Ele diz o que quer dizer e, como sempre, deixa claro que realmente quer dizer o que diz. Contudo, ele está errado, e acho que sua declaração é capciosa e desprovida de caridade para com os bispos em questão.

O que significa ser “gay” ou “LGBT”? Esta pergunta poderia ser respondida de muitas maneiras diferentes: de acordo com a preferência sexual, comportamento, orientação, identidade, psicologia, biologia, estilo de vida etc. Entretanto, não pode haver nenhuma dúvida de que, no momento, o rótulo “LGBT” e seus componentes representam mais do que simplesmente um dado sobre as disposições, estilos de vida ou constituições biológicas de indivíduos variados. Eles representam uma ideologia política e antropológica altamente desenvolvida, que faz fortes reivindicações sobre a natureza humana e o desejo, a moralidade, a estrutura familiar e o uso apropriado do corpo.

Só para esclarecer, todo e qualquer indivíduo que se identifique com qualquer um dos rótulos que se enquadram no “LGBT” é digno do nosso amor, empatia e solidariedade em sua busca (com todos os cristãos) por verdade, justiça e felicidade eterna. Mas o que compartilhamos com nossos irmãos, por causa da nossa humanidade comum, não invalida o que nos divide em termos de nossas escolhas e crenças sobre felicidade, justiça e verdade.

E assim, aqui está o problema: a Igreja Católica e a Comunidade LGBT possuem entendimentos divergentes acerca da natureza humana, da identidade pessoal, do uso apropriado do corpo e dos requisitos para a felicidade. Como Frei Martin corretamente observa, os católicos tratam a Comunidade LGBT como “diferente” – não porque a igreja deseja excluir os membros dessa Comunidade da misericórdia de Cristo, da admissão à igreja ou da consequente participação dos sacramentos (ao contrário, esta é uma das nossas grandes esperanças), mas porque as crenças, práticas, opiniões políticas e costumes propostos pela Comunidade LGBT são fundamentalmente hostis ao fim principal do homem.

Aqueles que estão no outro lado reconhecem a linha divisória perfeitamente bem. É por isso que os defensores da estrutura da família tradicional são, consequentemente, “intolerantes” aos seus olhos. É por isso que discordar das demandas políticas da Ideologia de Gênero e seus atuais usos linguísticos é punido com tanta severidade. O que é, portanto, que o Frei Martin está requerendo ao repreender os bispos por não expressarem solidariedade pela Comunidade LGBT, ou pelos “nossos irmãos e irmãs LGBT”, como fez o Arcebispo Cupich? Ele está requerendo, perceba isso ou não, que os bispos reconheçam e endossem tacitamente as identidades sexuais promovidas pela Comunidade LGBT – identidades associadas fundamentalmente à ideologia de gênero promovida pela Comunidade.

Isto, naturalmente, seria profundamente enganoso da parte dos bispos, uma vez que a Igreja não pode endossar tal ideologia. Seria também um fracasso evangelístico e um fracasso de caridade. A missão da Igreja, no que se refere à Comunidade LGBT, é opor-se à fetichização da identidade de gênero. O dever dos bispos é dizer à população LGBT que eles são conhecidos e amados como mais do que simplesmente o protótipo de um símbolo sexual.

Frei Martin diz que os gays são “invisíveis” na Igreja. Por um lado, ele está certo – a Igreja, como Cristo, recusa-se a confundir a ilusão do pecado e da ideologia com a realidade das pessoas que ela encontra. O que ela enxerga é simplesmente cada filho de Deus: sofrendo, esperando, ansiando por remissão, criado para a possibilidade da união eterna com Deus.

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Fonte: First Things.
Tradução de Leonardo Bruno Galdino.

Elliot Milco é subeditor do First Things.  
10 de jun de 2016 | By: @igorpensar

Feministas. E, a pornografia?


Trabalho há 5 anos em uma ONG que lida diretamente com crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade e moram, em sua esmagadora maioria, em vilas e aglomerados. Quando vamos analisando toda dinâmica ao redor do caso do estupro coletivo na comunidade da Praça Seca no Rio, vejo ecos de falas, expressões e posturas sexuais em relação a mulher muito parecidos do que escutamos e vemos em crianças e adolescentes que atendemos. Como venho defendendo: afirmar uma cultura do estupro é dissolver a questão na fluidez da expressão. Então, ao invés de evocar uma cultura, seria mais prudente, lidar diretamente com fatores (observem o plural) culturais, psicológicos e morais que influenciam (não determinam) à violência contra a mulher.

Levanto um tema quase ausente na retórica de algumas feministas no Brasil: a educação sexual da maioria das crianças e adolescentes em comunidades hoje se dá pelo acesso massivo e irrestrito a pornografia da pesada por meio da internet, o "gato net", alguns funks "proibidões" e trocas de conteúdo pornográfico por celular. Se há um fator cultural que pesa moralmente no sentido de uma objetificação e violência contra a mulher é a pornografia. E, querem saber a verdade? A maioria dos homens, da minha faixa etária, tem sido sexualmente educados pelo consumo da pornografia.

Então, feministas que levantam um agenda contra a pornografia têm a minha admiração e apoio neste tema e em outros. Porém, as que ressignificam ou ignoram a pornografia, alegando que não é eliminar, mas empoderar a produção pornográfica colando a mulher na direção e produção, implicaria em um erro radical: a manutenção do discurso da mulher e da sexualidade como produto a ser consumido. Isto é objetificação de qualquer jeito. Por esta razão, apoio iniciativas como a do Clube Love. Honestamente, eles têm feito mais pelas mulheres do que muita militância por aí.
31 de mai de 2016 | By: @igorpensar

Cultura do Estupro?

O termo "rape culture" (cultura do estupro) foi criado durante a segunda onda feminista nos EUA nos anos 70. O termo tem valor para a militância feminista e tem um sentido muito específico dentro de certas tendências políticas. A expressão se refere a noção de que todo indivíduo quando estupra, o faz condicionado por determinado contexto cultural ou simbólico. Geralmente, "cultura do estupro" cola-se a noções como misoginia, patriarcalismo, objetificação da mulher, machismo, pornografia e símiles. 

O problema com o termo é que ele enfraquece a responsabilização moral do criminoso, transferindo sua culpa pessoal a fatores de ordem "simbólica" ou "cultural". A despersonalização moral alavancada por um evento "abstraído ideologicamente" (o estupro) dá força discursiva à militância em questão. Força discursiva assume força política, logo justificará intervenções e pacotes de "reforma cultural". Mas, espere aí! E, a vítima? E, o estuprador? Percebeu a cortina de fumaça?

O violentador e o violentado não são tratados em uma relação real em que há violência e violação da dignidade humana. O discurso não é contra o estupro, mas dirigido a um "fenômeno" artificialmente contextualizado, amoral e despersonalizado, retroalimentado pela comoção pública, e finalmente instrumentalizado para fins políticos. A vítima, neste caso, está sendo usada duas vezes: sexual e ideologicamente. O propósito final por trás do meme "cultura do estupro" não é a proteção da vítima, mas o triunfo de uma agenda.
Ironicamente, a maior organização americana contra violência sexual e que advoga por vítimas deste tipo de violação, a RAINN (Rape, Abuse & Incest National Network), aclamada e referendada pela militância feminista, alerta: "Nos últimos anos, tem havido uma infeliz tendência em acusar a 'cultura do estupro' pelo extensivo problema de violência sexual ... Enquanto é útil destacar as barreiras sistemáticas dirigidas ao problema, é importante não perder a noção de um fato simples: estupro é causado não por fatores culturais mas por decisões conscientes, de uma pequena porcentagem da comunidade, em cometer um crime violento."[1]

Não tenho dúvidas de que há diversos fatores envolvidos no comportamento sexual de um estuprador, inclusive aqueles que não são meramente "culturais". O documento da organização RAINN endereçado à Casa Branca em 2014 assevera que a tendência de focar na "cultura do estupro" tem o efeito paradoxal de 'remover o foco da culpa individual, e acaba enfraquecendo a responsabilidade pessoal por suas próprias ações'. Então, que o estuprador seja punido como criminoso e a vítima tratada como tal. E, que ambos não sejam abstraídos ou recortados e colados em contextos discursivos artificiais. Esta é a melhor a mais eficiente coisa a ser feita a perpetradores e vítimas.

  Uma última consideração... Se, o que está na raiz do estupro é objetificação da mulher, como se alega, então que a militância feminista seja a primeira a não usar uma linguagem de "territorialização" ou "cercamento" do corpo, tratando-o como "propriedade privada". Pois é exatamente isto que está por trás de frases de efeito do tipo: "Meu corpo minhas regras." Mulheres não são seres desencarnados ou dicotomizados entre o "eu" e o "corpo", entre "sujeito" e "objeto", elas são inteiras, foi assim que uma mulher, minha mãe, me ensinou sobre as mulheres. Então, que tenhamos mais mães como a dona Matilde e menos experimentos políticos.
20 de mai de 2016 | By: @igorpensar

Heróis: há vagas?

Nossa cultura inventou a noção de que todo mundo tem que ser muito bom, gênio e bem sucedido de acordo com os critérios de sucesso das novelas, dos filmes e dos livros. Ser bem sucedido pode ser, no fim, pura performance estética, sem qualquer consistência metafísica.

O problema é que não há tantas vagas para gênios, heróis ou bem sucedidos segundo tais critérios, apesar de nossa loucura desenfreada rumo a esta direção. Além do mais, o critério para ocupar tais vagas é muito questionável. Conversa pra depois.

A questão é que se adotarmos os padrões de "inserção social" de nossa sociedade atual, certamente, não suportaremos o fardo da existência, como demonstram nossas patologias comportamentais modernas. De fato, a grande e esmagadora maioria das pessoas deste planeta será composta de gente comum, mediana, sem muitas "habilidades técnicas" admiráveis. E, há uma enorme chance de você, caro leitor, simplesmente passar por esta vida como um "pessoa comum" de acordo com os critérios de sucesso de nossa cultura.

Então, não se sinta burro, de menor valia ou indigno, como já disse, os critérios aí impostos são muito questionáveis. O anonimato e a discrição podem ser de valor inestimável. Sendo assim, descubra uma forma de tornar sua vida ordinária mais significativa, claro, isto exigirá certa dose de sensibilidade e espiritualidade. Exige descobrir a arte da gratidão, generosidade, modéstia, compaixão, hospitalidade e tantas outras riquezas, que nossa sociedade do controle técnico e do acúmulo de bens jamais mencionará.

A vida precisa ser redescoberta a partir de uma singeleza básica: trabalhar, casar, amar o cônjuge, ter filhos, educá-los, ir à igreja todo domingo, praticar um esporte, ouvir boa música, ajudar o próximo, fazer algum trabalho voluntário e sempre ler um bom livro. Esta rotina (palavra que os moderninhos odeiam), repetição e ritos ordinários, são cheios de beleza. Mas, nossa cultura perdeu a capacidade de ver para além da tirania da inovação e da autenticidade. A repetição pode ser simplesmente uma reprise de algo muito bom e a inovação pode ser pura tolice com cara de autenticidade.

Cansou? Aprenda a tornar cada gesto ordinário em um evento extraordinário. Abrace a narrativa evangélica: "Vinde a mim todos vós que estais cansados e sobrecarregados e eu vos aliviarei." (Jesus).